quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O OLHAR DE UMA ESTRANHA NO MEIO I

O Correio do Povo do dia 13 passado trás uma reportagem sobre moradores de rua alojados no Viaduto Otávio Rocha. O da Borges, como é mais conhecido. 
Nela, a prefeitura garante que "medidas efetivas serão tomadas ainda no decorrer deste ano". Não há referência a que tipo de medida.  O secretário de cultura lamenta a imagem negativa da situação, posto que "trata-se de um símbolo de Porto Alegre".
Ainda na reportagem, o diretor administrativo da FASC diz que "equipes volantes fazem abordagem com caráter humanitário. Apontamos opções como o Albergue Municipal ou o retorno às suas casas."
Solução simplista para um problema complexo.  Que atrativo pode ter um albergue em noites de verão, para muitas dessas pessoas? Lá, no viaduto, elas têm colchões. Podem beber e usar drogas. Alimentam-se de "macaquinhos" (alimentos deixados pendurados nas árvores e grades, acondicionado em sacolas plásticas) e contam com as esmolas dadas pelos transeuntes.
Na rua do Albergue Municipal temos situação idêntica a do Viaduto Otávio Rocha, com o agravante de a quantidade de lixo ser maior.
O ato de simplesmente recolher não é solução. O vício impede que muitos saiam da rua. Outros muitos, orgulham-se dessa situação. "Aqui é a vida de verdade", já me disseram.
Tem, ainda, quem utilize o sistema de albergues e casas de convivência achando tudo muito bom:
- Irmão (muitos se tratam assim)
- Sim?
- Dormiste bem?
- Dormi.
- Quanto pagaste?
- Nada!!!
- Jantaste antes de dormir?
- Sim!!!
- Quanto pagaste?
- Nada!!!
- E tem gente que acha a vida ruim!!!
A conversa se dá em tom de risada.
Alguns estão preocupados de que o Presidente, o Lula, venha a saber que o bolsa-família ganhou o apelido de bolsa-crack ou bolsa-cachaça, conforme o usuário, e corte a "mesada".  




onde estavas, lugar?
em que chão, em que ar?
onde fostes depois de me abandonar?
Arnaldo Antunes


*Recuperei meu caderno, deu prá notar, né?

4 comentários:

  1. Maria...sobre "assistência" isso é uma discussão antinga!No governo anterior se tinha teorias polêmicas de que assistência È diferente de inserção ao meio social, a primeira surgiu pós guerra(primeira mundial) e a segunda com visão baseada na exclusão gerada pelo mercado capitalista.(trabalho, exploração, mais valia e desmprego)Ainda na concepcção de esquerda,"recolher" quem faz é DMLU, lixo se recolhe das ruas pessoas não!A proposta era transformar a realidade tendo o morador de rua como agente desse processo.( na época foi criado o LOAS e o movimento de moradores de rua)O atual governo manteve a estrutura(abrigos,programas de atendimento,etc) mas trata disso como a direita sempre tratou.E o senso comum segue a tudo isso!O forum social tá aí, e o Fogaça tem que "limpar" a cidade pros gringos!

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  2. Anônimo,
    Concordo com tudo o que disseste, principalmente que quem recolhe é o DMLU.
    O que estou relatando é a visão de uma burguesa (até mais do que eu pensava ser, rs) inserida num contexto que lhe é estranho.
    Quando cheguei à rua eu tinha uma visão diferente, uma visão romântica sobre essa população e situação.
    Uso os termos assitência e recolher por ser mais próximo à realidade do sistema em voga.
    Veja, eu perdi um emprego (desci do salto e peguei um balde) por causa do sistema de assistência e no final de dezembro fui conversar com a assistente social que me deixou, novamente, sem saída. Eu fico louca com isso.
    De outra parte, não consigo vislumbrar o morador de rua como agente transformador. Participei de alguns projetos e o que me pareceu é que servimos como “massa de manobra” para que alguns ganhem dinheiro.
    Quanto a limpar a cidade.... afe! O medo maior da população é por causa da copa...
    Obrigada pelo comentário!

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  3. Maria mas é extamente isso! Essa atual administração faz ASSISTENCIA, que é deixar as pessoas em situação de rua nessa condição.A outra tentou fazer diferente,tentou modificar a asssistencia pra reinserção.Foi o PT quem criou o RAP.E é o pessoal atual que tem a visão de recolher, e está fazendo.Na administraçaõ passada houve entravez porque tiveram que trabalhar com entidades e ongs arquiológicas em fazer assistencia e que ganhavam dinheiro com isso, e resistiram muito em mudar a ação pra uma nova concepçaõ.Pois quando o pt chegou não havia abrigos, programas de atendimento, legislação(LOAS) e morador de rua não votava e não tinha documentação.
    Aquelas ongs que brigavam com o pt, hoje ta na administraçaõ da prefeitura ou são conveniadas da mesma.A Brisabel atual presidente da FASC, era uma pedra nas reuniões em que participei.Essa é só uma delas, as entidades serias foram limadas desse governo.
    mas...seguimos a prosa outra hora!

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  4. Viu Maria , seu blog esta mechendo com pessoas como nós.
    Segue em frente , pelo menos apoio moral eu posso te dar.

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