Terminada a reunião, vou dar uma volta até o Gasômetro, tomar um sol. No caminho acho uma nota de 20 pilas. É como tirar a sorte grande. Chegando lá, encontrei Isadora, bem-bela, lagarteando em um banco. Abonada, convido-a para um cafezinho acolhedor. O café quente, compartilhado em dia frio, teve a intimidade de um tinto, Baco se fez presente, ela contou a sua história.
Aos 20 anos conheceu um homem com o qual teve um romance inocente, de poucos dias. Ele era bem mais velho, na época quase o dobro de sua idade. Casado, pai de filhos, o que ela soube somente há pouco tempo.
Passados cinco anos, veio estudar em POA. Na cidade grande casou e fez amigos. Seu marido era do tipo que tinha amantes. Não um Dom Juan, mas um autêntico galinha. As leitoras, tenho convicção, sabem a diferença.
O casamento durou nove anos. Depoios de separada, teve apenas três envolvimentos amorosos. Todos frustantes. Bem frustrantes, pensei eu, ao saber dos detalhes.
Isadora sentia-se, há muito, deslocada no mundo. Não havia lugar em que se achasse confortável, nem junto aos amigos que ela tanto queria bem.
Com ideais libertários e comportamento conservador, começou a participar de chats, supondo que "anonimamente as pessoas poderiam falar de si sem usar máscaras." Nas conversas misturava o que ela realmente era com facetas que não eram suas, afim de se conhecer em profundidade. Queria roer até os ossos.
Em salas de sexo virtual testou fantasias diversas, não as suas, mas das que ouvia falar. "Precisava saber se eu era desse mundo". Sexo à três, homens casados, mulheres, fetiches...
Descobriu ser uma legítima careta romântica. (Ufa! pensei que eu era a última remanescente da espécie).
Apaixonou-se por um amante virtual. A idéia lhe pareceu absurda. "Paixão tem a ver com pele, com olhos, com saliva." Ele lhe mandava poemas, músicas, reportagens. Era como se a conhecesse. "Coisa de mulher apaixonada", pensava.
Ingênua, perguntava-se como poderia um desconhecido acertar
sempre nas escolhas. Como o comportamento dele era de quem esperasse uma atitude dela, e ela não mentisse a sua idade, na época, 52, começou a suspeitar que se tratava de alguém jovem e tímido.
Teclaram por mais de um ano. Os dois mantinham seus nomes em segredo. De repente, ele começou a se manter distante, monossílabo. Quando entrava no msn, não a chamava mais. Ela o chamava de vez em quando, mas a conversa não rendia. Ela entendia cada vez menos.
Começou a receber mails de pessoas que não conhecia, com assédio moral ou aludindo à violência física, principalmente esquartejamento.
- Encaixotando Helena?
Ela não conhecia o filme. Chorou. Me arrependi da gracinha. É efeito da cafeína, justifiquei.
Não posso me ater aos datalhes que me foram confiados, deixaria de ser um post, pela imensidão, daria um livreto.
As ameaças partiam daquele homem que ela namorou aos 20, no interior. Também era ele o tal amante virtual, não sabe se o tempo todo, pois... aja coração... o tal, já aqui na capital, foi seu colega em um grupo de estudos por mais de dez anos. Ela não o tinha reconhecido mais velho, com bons quilos a mais e com outro nome. Ficaram muito amigos. Ela, leal companheira, descobriu que sua vida havia sido um teatro de sombras desde que se mudou para Porto Alegre. (A gasguita aqui lembrou do nome de um livro: desventura em série. Mas fiquei calada).
O marido, os casos amorosos e os amigos haviam sido um engodo urdido pelas mãos do amigo cachorro.
O motivo dele é que a viu com outro homem. Ela não sabia.
O outro era apenas um amigo que conhecera bem antes e que de vez em quando trocavam uns beijos. Dois machucados que se encontravam para aliviar suas dores, para rir, para dançar... coisas de menina, enfim.
Ele passou mais de 30 anos querendo saber com quem ela havia perdido a virgindade. (Sim, leitores, estamos situados no fim do século XX e início do século XXI). Vocês não esqueceram que ele era casado e tinha filhos, não é?
Diz tê-la amado por muitos anos. De um amor doentiu. Tirou tudo dela: casa, amigos, lembranças em forma de objetos pessoais. Usou e abusou de assédio moral.
Questão de justiça, alegou ele, embora nunca tenha ousado falar do seu amor a ela.
Ela descobriu que amava ele havia muito, ou ao que achava que era ele. Não se permitiu, ele era casado e tinha uma amante, ela não queria repetir o erro do seu casamento.
Quando se descobriu perdida e absurdamente apaixonada, aos cinquenta e poucos anos, perdeu seu prumo. Teve suas primeiras fantasias sexuais, todas muito ousadas para uma careta de carteirinha.
Ela não entende por que ele insiste em oprimi-la. E isso lhe toma o pensamento quase que durante todo o dia.
Em alguns momentos me pareceu que ela desistiu da vida.
"Sonhei que o fogo gelouSonhei que a neve ferviaE por sonhar o impossível, aiSonhei que tu me querias"
Chico Buarque