terça-feira, 29 de dezembro de 2009

dezembro

Há dias o quarto-de-banho feminino do Municipal está interditado. Já haviámos informado que os ralos estavam entupidos, que exalava um odor desagradável, que havia baratas.
O piso do chão quebrado é uma ameaça a pés desavisados.
À noite, tomamos banho no banheiro masculino. É pior que o nosso, não há registro para regular a temperatura da água. É banho gelado ou escalpelante, depende do chuveiro.
Pela manhã, com acesso pela casa 2, a regra é que utilizemos o banheiro dos portadores de deficiência física: um chuveiro, muito estresse.
Mal desligo a ducha, após um banho relâmpago, e a funcionária da casa não pára de bater à porta.
- Rápido!!!  Tem uma fila de 10 mulheres aguardando para o banho.
Respondi que havia pouco que eu tinha entrado e estava me secando. Ela não se conformou, voltou a bater, com mais força.
- Irritada, abri a porta e disse a ela que meu banho tinha sido rápido.
-Não tem que ser rápido, tem que ser ultra rápido! Respondeu-me.
Saí do banheiro, havia apenas uma mulher aguardando para o banho.

Indignada, não espero pela ficha do lanche, saio à rua.
Na feira da José Bonifácio o cheiro do manjericão exala, delicioso e forte.
Lembro do meu vaso, onde colhia manjericão fresco para por no molho, na salada ou para fazer um pesto... a saudade dói.

"... ela era uma rosa,
as outras eram manjericão...

INVERNO

Sem trabalho, voltei a participar do Projeto. Na ocasião estavam com uma parceria com a UFRGS para o programa convivência, onde alunos da extensão nos dariam oficinas por 14 manhãs.
Para a maioria de nós, valeu o lanche da manhã e o almoço, e achamos que as oficinas foram "uma pegadinha"...
Li a reportagem sobre o convivência no Jornal da Universidade para alguns participantes e acabamos por dar tristes e desesperançosas risadas.
Na área burocrática há o bordão de que o papel aceita tudo. Eu diria que apresentação em data-show com bastantes fotos tudo vira verdade.
Corpo exausto e fome. O fato de não deitar e não trocar de roupa fez com que a pele da sola do pés, as meias e os tênis se fundissem. Criarem uma espécie de bolha em toda a sola. Inchados pés e pernas. Dor.
Adoeci.
Já que eu estava no HPS... consultei. Erisipele. Nunca tinha ouvido falar.
Por intermédio da assistente social Lizete, do Projeto, voltei para o Municipal, faltavam 3 dias para fechar os quinze.
Primeira noite no Navegantes. Hora do jantar. Assédio moral por parte dos monitores. Consegui ficar calada, mas a comida não desceu.
Fui até a FASC a fim de reverter a situação, voltar para o Municipal e com o primeiro salário procurar uma pensão. Fui atendida pelo servidor Nashmura. Muito mal atendida.  Ele estava presente à reunião que havia se dado no Projeto:
_ Eu lembro da senhora. És muito agressiva, tens que aprender a falar.
Ainda não sei o que ele entende por agressividade. Para mim o agressivo foi ele, eu diria que fui enfática e objetiva. Resultou que não consegui ajuda.
Nas quatro noites subsequentes no albergue no Navegantes o assédio continuou.  Não consegui esperar que se fechassem os 15 dias.  Fui, novamente, dormir no HPS.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

perdendo o emprego

Chegamos no albergue numa felicidade só... véspera do grande dia.
Ganhamos meias, calça de abrigo, camiseta e sabonete, a fim de chegarmos bem apresentados no posto de trabalho, um hospital.
Serviço bem pesado, ao menos para mim, acostumada no serviço burocrático.
Passada uma semana, recebi a notícia de que teria que ir embora, havia completado mais de 30 dias no Albergue Municipal de Porto Alegre. Devia ficar fora 15 dias para poder retornar, é a regra. Gelei, pegava o ônibus às 6h da manhã na esquina do albergue pra poder chegar ao batente na hora. Falei com o gerente que disse que eu ficasse tranquila, daria um jeito na situação. Três dias depois fui mandada para um albergue no Navegantes, junto à igreja. Ali não há monitoria feminina durante toda a noite. Ficamos em um andar em que o acesso é fechado por uma grade que fica cadeada, para "nossa segurança". Não tinha como sair antes das 6 horas. E mesmo que tivesse, é um lugar perigoso de sair nesse horário até a Av. Brasil para pegar o ônibus, horário da fissura do crack, ninguém é perdoado.
Perdi o emprego.

Com as mãos quase no balde

Certa noite, ao chegar no Albergue Municipal, soube que 10 usuários seriam encaminhados para concorrer à vaga de serviços gerais em uma prestadora de serviços. Meu nome constava na lista. Vibrei!
Na manhã seguinte, cedérrimo, com o TRI assistencial (que contém 2 passagens)na mão, fomos à empresa tentar a sorte.
Ao preencher a ficha, diminuí o meu grau de instrução e minha função. Consegui. Eu e mais três.
Se pobre quando a esmola é demais se assusta, imagina se indigente é.
- Vocês têm que fazer o exame médico e voltar aqui até às 18h para início amanhã.
Isso já era por volta das 14h. Estávamos cansados e famintos. Não tínhamos passagem nem dinheiro para tal percurso.
Expliquei a situação e pedi para usar o telefone. Liguei para a assistente social da casa 2. Não havia mais passagem disponível, era fim de mês. Falei com uma das encarregadas sobre a possibilidade da Kombi da FASC fazer um "tour" conosco, estava na oficina.
Os guris, acostumados a andar por conta das reciclages, foram a pé.
Roteiro: Jardim Itú- Av. Brasil - Jardim Itú - Floresta.
Eu e minha colega fomos embora.
Disfarçadas de galinhas mortas pra viajar de caminhonete, à noite falamos com o gerente do albergue e conseguimos mais passagens. Fomos direto para o exame médico e depois para a empresa. Deu certo. Na manhã seguinte colocaríamos as mãos nos baldes...

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

a incrível história de Isadora

Terminada a reunião, vou dar uma volta até o Gasômetro, tomar um sol. No caminho acho uma nota de 20 pilas. É como tirar a sorte grande. Chegando lá, encontrei Isadora, bem-bela, lagarteando em um banco. Abonada, convido-a para um cafezinho acolhedor. O café quente, compartilhado em dia frio, teve a intimidade de um tinto, Baco se fez presente, ela contou a sua história.
Aos 20 anos conheceu um homem com o qual teve um romance inocente, de poucos dias. Ele era bem mais velho, na época quase o dobro de sua idade. Casado, pai de filhos, o que ela soube somente há pouco tempo.
Passados cinco anos, veio estudar em POA. Na cidade grande casou e fez amigos. Seu marido era do tipo que tinha amantes. Não um Dom Juan, mas um autêntico galinha. As leitoras, tenho convicção, sabem a diferença.
O casamento durou nove anos. Depoios de separada, teve apenas três envolvimentos amorosos. Todos frustantes. Bem frustrantes, pensei eu, ao saber dos detalhes.
Isadora sentia-se, há muito, deslocada no mundo. Não havia lugar em que se achasse confortável, nem junto aos amigos que ela tanto queria bem.
Com ideais libertários e comportamento conservador, começou a participar de chats, supondo que "anonimamente as pessoas poderiam falar de si sem usar máscaras." Nas conversas misturava o que ela realmente era com facetas que não eram suas, afim de se conhecer em profundidade. Queria roer até os ossos.
Em salas de sexo virtual testou fantasias diversas, não as suas, mas das que ouvia falar. "Precisava saber se eu era desse mundo". Sexo à três, homens casados, mulheres, fetiches...
Descobriu ser uma legítima careta romântica. (Ufa! pensei que eu era a última remanescente da espécie).
Apaixonou-se por um amante virtual. A idéia lhe pareceu absurda. "Paixão tem a ver com pele, com olhos, com saliva." Ele lhe mandava poemas, músicas, reportagens. Era como se a conhecesse. "Coisa de mulher apaixonada", pensava.
Ingênua, perguntava-se como poderia um desconhecido acertar sempre nas escolhas. Como o comportamento dele era de quem esperasse uma atitude dela, e ela não mentisse a sua idade, na época, 52, começou a suspeitar que se tratava de alguém jovem e tímido.
Teclaram por mais de um ano. Os dois mantinham seus nomes em segredo. De repente, ele começou a se manter distante, monossílabo. Quando entrava no msn, não a chamava mais. Ela o chamava de vez em quando, mas a conversa não rendia. Ela entendia cada vez menos.

Começou a receber mails de pessoas que não conhecia, com assédio moral ou aludindo à violência física, principalmente esquartejamento.
- Encaixotando Helena?
Ela não conhecia o filme. Chorou. Me arrependi da gracinha. É efeito da cafeína, justifiquei.
Não posso me ater aos datalhes que me foram confiados, deixaria de ser um post, pela imensidão, daria um livreto.
As ameaças partiam daquele homem que ela namorou aos 20, no interior. Também era ele o tal amante virtual, não sabe se o tempo todo, pois... aja coração... o tal, já aqui na capital, foi seu colega em um grupo de estudos por mais de dez anos. Ela não o tinha reconhecido mais velho, com bons quilos a mais e com outro nome. Ficaram muito amigos. Ela, leal companheira, descobriu que sua vida havia sido um teatro de sombras desde que se mudou para Porto Alegre. (A gasguita aqui lembrou do nome de um livro: desventura em série. Mas fiquei calada).
O marido, os casos amorosos e os amigos haviam sido um engodo urdido pelas mãos do amigo cachorro.
O motivo dele é que a viu com outro homem. Ela não sabia.
O outro era apenas um amigo que conhecera bem antes e que de vez em quando trocavam uns beijos. Dois machucados que se encontravam para aliviar suas dores, para rir, para dançar... coisas de menina, enfim.
Ele passou mais de 30 anos querendo saber com quem ela havia perdido a virgindade. (Sim, leitores, estamos situados no fim do século XX e início do século XXI). Vocês não esqueceram que ele era casado e tinha filhos, não é?
Diz tê-la amado por muitos anos. De um amor doentiu. Tirou tudo dela: casa, amigos, lembranças em forma de objetos pessoais. Usou e abusou de assédio moral.
Questão de justiça, alegou ele, embora nunca tenha ousado falar do seu amor a ela.
Ela descobriu que amava ele havia muito, ou ao que achava que era ele. Não se permitiu, ele era casado e tinha uma amante, ela não queria repetir o erro do seu casamento.
Quando se descobriu perdida e absurdamente apaixonada, aos cinquenta e poucos anos, perdeu seu prumo. Teve suas primeiras fantasias sexuais, todas muito ousadas para uma careta de carteirinha.
Ela não entende por que ele insiste em oprimi-la. E isso lhe toma o pensamento quase que durante todo o dia.

Em alguns momentos me pareceu que ela desistiu da vida.


"Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias"

Chico Buarque


Inverno.

Ouvi falar sobre um projeto para moradores de rua que se realizava no prédio do Restaurante Popular, mais conhecido como bandejão, onde quem participa ganha um tíquete para almoçar.
Saco vazio não pára de pé, diz o ditado. Fui conferir.

Fui, junto com uma participante, tentar me inserir nele. Grade fechada e um tumulto na frente. Ali aglomeravam-se os participantes, os que pedem esmola aos transeuntes e os que esperam doação de vales para almoço, que são distribuídos em número de dez.
A grade é aberta na medida em que apenas uma pessoa de cada vez possa passar. Não lembro ao certo como se deu, mas entrei como se eu já fizesse parte do grupo, não como mendiga, mas, quem sabe, como voluntária... afinal, o que conta é a aparência, todos sabemos.
O projeto, enquanto participei, era articulado por uma ONG e professores da UFGRS, e contava, também, com duas assistentes sociais. A temática principal, na ocasião, era a de levantar problemas e reinvidicações para os moradores de rua, albergados ou não, para a conferência de assistência social e para a conferência de segurança pública.

Uma das principais reclamações do público masculino era a de que tinham de estar na fila por volta das 12,30h para poderem acessar o albergue municipal a partir das 19h, o que os impedia de procurar trabalho e que ali, na fila, era um ambiente propício ao álcool e às drogas.
A coordenação do projeto convidou a FASC (Fundação de Assistência Social e Cidadania), órgão da prefeitura, para uma reunião em que participaríamos. O convite foi aceito.
Presidente, Diretor e mais uns seis funcionários. Tiraram muitas fotos, como em quase toda a oportunidade. Foto com indigentes deve dar ibope, penso eu. Sempre peço para não ser fotografada.
Aberta a reunião, muitas reclamações sobre os albergues e sobre os banheiros do albergue municipal.
Falei sobre a reinvidicação masculina em relação a fila. (Nós mulheres temos 25 vagas que geralmente não são totalmente preenchidas). Como o senhor Diretor mostrou uma postura defensiva e dizia que "não é bem assim", sugeri que ele fosse verificar in loco. Que o último entrava por voltas das 23h.
Queimei meu filme, mas só soube depois...
24 de dezembro. A casa 2 fechou ao meio-dia. Só reabrirá dia 26. Um temporal assola a cidade.
Resolvo entrar num hotel. Com que dinheiro? Com o de um programa da prefeitura. Não é fácil, os muito baratos geralmente são usados por usuários de crack ou de assaltantes. "Os homi" entram para dar girica, dizem que a pontapés. Opto por um de classe econômica, o que é um luxo para uma indigente. 50 pilas a diária com café da manhã. Ao menos terei onde ficar e ir ao banheiro. Lembrem, queridos leitores, dia 25 tudo está fechado, só resta a calçada.
Um grupo de indigentes está agrupado em frente ao hotel, numa praça. Eles são da rua, e muitos têm orgulho disso, outros são conformados, acham que é uma provação, um teste de deus. Eu estou na rua e não me acostumo, nem pretendo, com essa situação. Se deus existe, eu odeio ele.

De novo sem dinheiro... e o próximo feriado vem aí, logo logo...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um domingo. Invernico em dezembro.
Sinto falta do meu edredon, do meu cheiro. De levantar, tomar um pretinho com pão com manteiga e voltar pra cama, até o final da manhã, entre a preguiça de ler o livro ao meu lado e a sonolência depois de uma semana de muito trabalho.
De se deixar estar.
De não atender ao telefone.
De não atender à porta.
E, de repente, despertar com o Chico ou o Gil cantando.
Procuro uma padaria que sirva o tal pretinho forte e cacetinho com manteiga.
Assim como em muitos lugares coca e pepsi são a mesma coisa, para as padarias margarina é manteiga.


... tem dias que a gente se sente
como quem partiu ou morreu...
Ouvi muitas histórias sobre o flagelo da droga e do álcool. De tentativas e recaídas. Minha visão romântica da vida fazia com que eu me comovece com as mazelas contadas.
Certa noite, no Albergue Municipal, chegaram repórteres da Globo. Aceitei em dar uma entrevista com a condição de que não mostrassem meu rosto. Falei da precariedade do sistema e do pré-conceito da população em achar que indigente tem que andar sujo e muito maltrapilho. Até então eu partilhava do mesmo pré-conceito, admito.
A partir daí, reportagens no albergue, durante o período de intenso frio, tornaram-se frequentes.
Idealista, eu ainda achava que poderíamos mudar o sistema, mas não dei mais entrevista.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

5,45 horas. Somos despertados pelos monitores. Café da manhã e rua. Faz-se a volta na quadra e retornamos à casa 2, que abre às 7,15h.
O prédio é o mesmo, um pavilhão dividido. A casa 2 é uma ONG. Há tanques e um varal: espaço de cobiça para quem não tem o hábito de lavar suas roupas, de modo que ou se fica de vigia ou levamo-las, para secar, em praças públicas. Que situação!
Ali também funciona um precário telecentro, e um ambiente com cadeiras, televisão e aparelho de DVD para os finais de semana e feriados, com oferecimento de um lanche, sanduíche ou cachorro-quente.
O quarto para banho e os sanitários utilizados são os mesmos tanto para a casa de convivência quanto para o albergue.
Em pouco tempo comecei a relacionar-me com os usuários e descobri um roteiro gastronômico:
domingos: café da manhã no terminal de ônibus, ao lado do Mercado Público;
3a. feira: café da manhã numa igreja na Farrapos, acho que é a São Geraldo e ao meio-dia carreteiro numa igreja na 24 de outubro;
5a. feira: almoço nos "careca" (arroz, feião, repolho e banana);
sábado: café da manhã e almoço no "Paladinos";
2a. a 6a (ou até sábado?): sopão na Getúlio.
Desse roteiro, participei dos cafés da manhã, duas vezes em cada endereço. Me ver na fila é assumir uma realidade que não aceito.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Haviam me falado de uma casa de convivência da Prefeitura, local onde se pode tomar banho e ser atendida por assistente social. Tentei acessar o serviço por duas ou três vezes.
_ Não há mais fichas, tem que chegar mais cedo.
Era sete horas da manhã.
Resolvi xeretar algo no site da prefeitura. Descobri a existência de outra casa de convivência e do Albergue Municipal.
À tarde fui à casa 2, como é chamada no meio. Fui entrevistada pela assistente social.
No final da tarde, como havia sido orientada, dirigi-me ao Albergue.
Ao chegar na esquina, fui acometida de novo horror.
Muito lixo espalhado. Pessoas deitados na calçada, nos dois lados da rua. Cheiro de mijo. Cheiro de crack. Miséria humana.
Tive o ímpeto de me atirar à frente de algum carro. O desejo de viver foi maior.
Temerosa, comecei a caminhar pelo meio da rua até chegar ao portão.
Às 18 horas o guarda anuncia:
_ Senhoras!
Ficamos em bancos, em número não suficiente, entre a grade e o prédio, à esquerda de quem entra. Depois entram os homens, para o lado direito. Às 19 horas entramos. As sacolas ficam no bagageiro, o banho é obrigatório.
Jantei, fumei e caí na cama.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Manhã do sexto dia. Apavorada pela fome, pela falta de higiene. O corpo pedia repouso. Uma cama. Aconchego. A noite fora gelada.
Continuo a perambular pela cidade. Ganhei dois reais de um casal que estava na fila da quentinha, aquela a que me referi em outra postagem. Comprei um pacote de bolachas e um cafezinho. R$ 1,50. Recupero-me um pouco e volto a caminhar. Não me atiro à calçada como os outros. Hoje, escrevendo, percebo que esta atitude é a não aceitação, até então inconsciente, da realidade em que estou inserida.
Inconsciente porque viver na rua é desesperador, é fome, é humilhação; nessa situação perdemos muito da percepção sobre nós mesmos, embora não paremos de pensar.
Nesse dia conheci uma mulher a quem chamarei de Isadora, que chegou a esse mundo cinco anos antes de mim e que vive na rua há dois anos. Talvez venha a contar parte da história dela, por hora direi que ela me lembrou da existência do albergue Dias da Cruz, na esquina da Ipiranga. Lugar que, confesso, sempre me pareceu muito triste, desolador.
Cheguei lá por volta das 17horas. A fila de indigentes masculinos era grande. Estavam sentados, envoltos em cobertores. Na fila feminina havia apenas uma mulher. Um hora de espera. Em pé, eu e ela. Tempo suficiente para eu me apavorar com suas histórias e maluquice. Dei no pé antes de acessar o albergue.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Pode-se tentar enganar os acompanhantes dos enfermos, mas não o povo da rua. Os que circulam no entorno do HPS começaram a "filmar" meu movimento. Fui abordada por um homem, perguntou-me o que eu fazia ali. Contei a ele o ocorrido: desemprego, fome, nenhuma malandragem e sem ter pra aonde ir. Ele me disse como arrumar comida. Fracassei. A vergonha e a falta de jeito me paralizou.
Ele me trouxe comida. Tudo misturado num plástico.
_ Faz um buraco no saco, põe na boca e manda ver!
A fome venceu o nojo daquela comida misturada, que lembrava a que se dá a cachorros em pátio de casa pobre.
Levei um sermão por causa do que ele chama de frescura. Brigamos.
_ Desce do salto!
_ Nem morta!!!
Cada um para um lado. Eu para o HPS, ele ganhou a rua.

Mesmo em desacordo, ele continuou me ajudando no dia seguinte. Malandro, ladrão e pedreiro (como são chamados os usuários de crack), foi como se apresentou a mim. Encontro de opostos na esquina da Venâncio com a Osvaldo. Não teria bairro mais aproprieado na cidade...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Durante o dia caminhava pela cidade em busca de comida. Ganhei, uma única vez, uma quentinha da sobra do buffet de sábado. No domingo, um pastel na Lancheria do Parque, que me valeu o dia. (meu muito obrigada ao senhor que me deu o pastel sem pestanejar, sem reclamar e de maneira discretíssima... valeu!)

Outra dia, no mesmo restaurante, esperando a quentinha prometida, não havia sobrado comida para duas. Havia uma mulher na minha frente.

Quando o chão estava sumindo dos meus pés - ou a esperança da minha barriga - ela não só dividiu a quentinha dela comigo como fez questão de que eu comesse a melhor parte. Percebeu, de cara, que eu era nova no ramo... e deu risada...

Na primeira vez que ganhei a quentinha, fiquei aturdida com algo que fez meus companheiros de fome acharem que eu era de marte:

_ Como se come sem talher?

_ Deixa de frescura, come com as mãos!

Não me dei por vencida. Entrei na Maomé e descolei colheres de plástico.

Aproveitei (não sem constragimento) os bancos amarelos da confeitaria para comer a bóia.
Às 6 horas da manhã, o guarda acordou as pessoas que dormiam na fileira de cadeiras do lado oposto do saguão. Moradores de rua. Indigentes. Situação em que eu acabara de entrar.

Ali passei cinco noites, em vigília, com frio e fome. Os mendigos da fileira oposta dormiam toda a noite. Três deles mantinham os movimentos sincronizados. Acomodavam-se nas mesmas posições. A cena renderia ótimas fotos, pensava eu com meus botões.

Mesmo com o corpo fatigado e usando as mesmas roupas, os guardas do HPS não me pediram para que eu fosse para a "ala" dos indigentes. De minha parte, mantinha uma postura de acompanhante de enfermo.

Essas noites foram frias e longas. No início da noite não havia cadeiras suficientes. Além dos que acompanhavam os acidentados, assaltados e enfermos, também era horário de visitas. Aguardava o movimento diminuir sentada do lado de fora. Ali, conversava com alguns acompanhantes. Ouvi muitas histórias de sofrimento e pobreza. Aproveitava para filar cigarro (...e a gente vai fumando que, também, sem um cigarro ninguém segura esse rojão...).

Por vezes, insistiam para que eu falasse sobre meu parente internado. Desconversava. Dizia que esperava pelo resultado dos exames para saber se seria necessário realizar cirurgia e que não gostava de falar sobre o ocorrido.

Durante o dia...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Gastei boa parte da sola do tênis entre a Lima e Silva e a República. Decidi encarar um hotel. Preço salgado para uma pessoa falida.

Refeição: café do hotel e torrada do Bar do Beto. Cabeça a zilhão. Três dias e rua. Peregrinação.

Voltei ao hotel. Dinheiro só havia para uma diária. Pagamento antecipado. Disse que ficaria apenas um dia. Fiquei quatro. Fugi sem pagar as outras três. De novo na rua. Alguns trocados, sem documentos e sem muda de roupa... e agora?

Fui percorrendo as ruas, sem direção e sem saber o que fazer. Final de tarde, passei mal. Estava perto do HPS, entrei. Sem documento é quase missão impossível, mas acabei sendo atendida. Por volta das 19,30h fui liberada. Não sabia para onde ir. Outono, já era noite.

Como ali havia movimento, acabei me misturando entre os acompanhantes dos enfermos. Perto da meia-noite o saguão já estava com pouca gente. Fiquei sentada, com muito sono mas em vigília, esperando as horas passarem e amanhecer.

Esperando amanhecer para ir ao banheiro. O do Zaffari. O sanitário do HPS além de estar em péssimas condições de instalação e higiene, não tem chave e é misto. Também não tinha papel higiênico e em plena expansão da Gripe A não havia sabonete ou algo para higienizar as mãos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Saí à rua. Algum dinheiro no bolso e sem saber o que fazer. Percorri a noite da Cidade Baixa, acompanhando o ir e vir da fauna. Resolvi ir ao cinema. Pensando em dormir no espaço entre as duas últimas fileiras, entrei no Guión. Poltronas ocupadas. Sentei-me mais à frente. Não assisti ao filme, a cabeça não parava. O que fazer?
Lembrei-me do estilete no fundo da bolsa... no escurinho
do cinema... Vontade de ir ao banheiro, saí. Quando voltei a sessão tinha acabado. Não deu para retornar à sala.
Quase uma da madrugada. RUA!