sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

UM POST DESCRITIVO

Segunda-feira pela manhã fui ao Gasômetro sentar-me num banco que é coberto, parcialmente, pela sombra de uma árvore. Ele me é estratégico. Posso ficar sentada à sombra e deixar minha camiseta secando ao sol.
Nesse dia não dei sorte. No banco ao lado senta-se um velho e um jovem.
A cena: eu estou de mochila com uma de suas alças enfiada na coxa. O celular enfiado na cintura do jeans, o fio do fone por baixo da camiseta chega até meus ouvidos. Estou escutando música. A deusa música, como canta o Gil.
Acendo um palheiro. O rapaz me pede um cigarro.
_ Não tenho.
_ Isso é maconha?
_ Não, é fumo, tabaco.
_ Me da um pouco!?
_ Não tenho mais, te deixo uns pegas.
Deixei. Eles não se afastaram.
Presenti que queriam algo meu.  Outros dois se aproximam para pedir informação, aproveito para escapulir.
Fui ao telecentro. Um mail me dizia que meus posts estavam a cada dia mais poéticos e tristes.
Não sem gracejo, respondi que nada que um dia com brisa e um Prince no rádio fazendo com que meu corpo sinta vontade de dançar não amenize. O que é verdade. Mas poesia... para mim, não há.
Meu pensamento insiste nas teorias pós-modernistas em que o simulacro tem mais potência que a realidade, mas quero falar do resto do dia, e a coisa, o post,  tá ficando longo.
Saio cedo do telecentro a fim de lavar um jeans na Convivência. Chego lá às 17,30h.
Penso com meus botões: deixo estendido e fico do lado até a casa fechar. Amanhã de manhã, bem cedo, pego a calça seca (me roubaram o mais bonito que eu tinha, fiquei mais pobre e a situação mais complicada).
_ Dá-me um pedaço de sabão, por favor?
_ Essa hora não pode mais lavar roupa.
_ Por quê?
_ Porque os tanques já estão limpos.
_ Ah! Eu deixo o que eu usar limpinho, não tem problema.
_ Fala com a Preta, só se ela autorizar.
Falei e expliquei a situação.
_ Não!!!! Não posso abrir exceção!
_ Talvez eu tivesse concordado fosse outra a funcionária, tenho meus motivos.
Irritada e sem retrucar, saio e vou para a fila do albergue. Como cheguei cedo, consegui sentar no banco. À minha frente, uma usuária está sentada no chão. Saia curta, sem calcinha. As pernas abertas, embora não escancaradas. Ela esteve com diarréia. Churrio, como se diz por estas bandas, tatuavam suas pernas. Ela cochilava, aparentemente tranquila, enquanto as moscas faziam a festa.
Um parte de mim se sentia diminuída em ver um semelhante nessa situação. Outra parte sentia nojo e revolta por estar num ambiente que não é o seu.
Dentro do albergue duas monitoras não usam luvas para atender a mim e a outra usuária. Elas dizem que somos limpinhas.
No banho, de novo nós duas, a funcionária que distribui as toalhas, lençóis e controla o tempo no banho diz:
_ Gurias, não demorem, vocês duas são limpinhas.
Algumas usuárias, em tom de deboche, provocam, para que eu seja suspensa, dizendo com orgulho, que são da rua. Para elas não há problema em dormir embaixo de uma "aba" ou na praça.

_ Ela é princesa!
_ Ôô barata branca, por que tu não vai pru hotel?
_ Vem aqui fuma uma pedra e bebê uma cachaça pra vê o barato!
No albergue não tem brisa, nem Prince.

Percorro a noite a Avenida Independência
Os travestis na esquina fazem-me sinais
Penso na vida, no sentido da existência
E meus sapatos pisam folhas de jornais


Por que não chuto cada poste no caminho
Não apedrejo a sinaleira que me pára
Nas madrugadas em que caminho sozinho
Pensando em nada apenas em chegar?


Por que não mudo a minha rota se estou triste
Por que não brota a minha frente a flor do mal
Nem de repente me aborda o dedo em riste
Hercúlea sombra de um violento policial?


Não sei por que já desisti, só quero caminhar
Até que os passos meus me levem a nenhum lugar
Encontrarei então aquilo que perdi
A minha morte que fugiu quando nasci


Vitor Ramil
Tango da Independência




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