sábado, 12 de dezembro de 2009

Manhã do sexto dia. Apavorada pela fome, pela falta de higiene. O corpo pedia repouso. Uma cama. Aconchego. A noite fora gelada.
Continuo a perambular pela cidade. Ganhei dois reais de um casal que estava na fila da quentinha, aquela a que me referi em outra postagem. Comprei um pacote de bolachas e um cafezinho. R$ 1,50. Recupero-me um pouco e volto a caminhar. Não me atiro à calçada como os outros. Hoje, escrevendo, percebo que esta atitude é a não aceitação, até então inconsciente, da realidade em que estou inserida.
Inconsciente porque viver na rua é desesperador, é fome, é humilhação; nessa situação perdemos muito da percepção sobre nós mesmos, embora não paremos de pensar.
Nesse dia conheci uma mulher a quem chamarei de Isadora, que chegou a esse mundo cinco anos antes de mim e que vive na rua há dois anos. Talvez venha a contar parte da história dela, por hora direi que ela me lembrou da existência do albergue Dias da Cruz, na esquina da Ipiranga. Lugar que, confesso, sempre me pareceu muito triste, desolador.
Cheguei lá por volta das 17horas. A fila de indigentes masculinos era grande. Estavam sentados, envoltos em cobertores. Na fila feminina havia apenas uma mulher. Um hora de espera. Em pé, eu e ela. Tempo suficiente para eu me apavorar com suas histórias e maluquice. Dei no pé antes de acessar o albergue.

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