Pode-se tentar enganar os acompanhantes dos enfermos, mas não o povo da rua. Os que circulam no entorno do HPS começaram a "filmar" meu movimento. Fui abordada por um homem, perguntou-me o que eu fazia ali. Contei a ele o ocorrido: desemprego, fome, nenhuma malandragem e sem ter pra aonde ir. Ele me disse como arrumar comida. Fracassei. A vergonha e a falta de jeito me paralizou.
Ele me trouxe comida. Tudo misturado num plástico.
_ Faz um buraco no saco, põe na boca e manda ver!
A fome venceu o nojo daquela comida misturada, que lembrava a que se dá a cachorros em pátio de casa pobre.
Levei um sermão por causa do que ele chama de frescura. Brigamos.
_ Desce do salto!
_ Nem morta!!!
Cada um para um lado. Eu para o HPS, ele ganhou a rua.
Mesmo em desacordo, ele continuou me ajudando no dia seguinte. Malandro, ladrão e pedreiro (como são chamados os usuários de crack), foi como se apresentou a mim. Encontro de opostos na esquina da Venâncio com a Osvaldo. Não teria bairro mais aproprieado na cidade...
A boa netiqueta
Há um dia

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